Worldbuilding: a fábrica por trás do universo

Publicado em 3 de dezembro de 2021

A engenharia literária de wardogs

Qualquer pessoa que olha para um universo ficcional ou expressão artística se faz a mesma pergunta, “Como é que alguém pensa nisso?”. Basicamente, se questiona de onde vem tanta criatividade e qual é o mecanismo cerebral que faz nascer algo tão surreal.

O mais curioso é que, quando se trata de storytelling, a criatividade nunca trabalha com o que não é semelhante ao espectador. Histórias falam sobre a vida, logo tudo o que se assiste, escuta ou lê está no campo do que se reconhece.

Mesmo em um mundo cyberpunk habitado por cães humanoides que vivem em cidades abaixo de redomas, você vai encontrar personagens, atitudes, objetos e modos de vida que podem ser vistos como parte da realidade.

Em uma fábrica de storytelling como a Eleven Dragons, é normal que exista um setor de geoficção ou worldbuilding. Resumidamente, é a área da criação responsável por construir o universo em que vamos conhecer os personagens. Wardogs se trata de um futuro pós-apocalíptico em uma cidade sitiada por vidro e radiação. Em algum ponto, você vai perguntar, “Como fazem isso funcionar?” e pode até ser decepcionante. A resposta é que a gente não sabe. Mas calma, essa situação é sempre passageira.

A criatividade não é tecnicamente um dom, claro que existem controvérsias quanto a minha afirmação, mas o que eu quero dizer é que não existe uma mágica especial que me dá o poder de pensar em mundos de fantasia e ficção-científica. A criatividade exige pesquisa, é uma habilidade que se desenvolve com muita leitura e disposição para experimentar e conhecer áreas fora da sua zona de conforto. E como eu havia dito anteriormente, histórias falam sobre a vida e isso quer dizer que nem tudo o que você precisa, está diante da sua tela de computador.

De início tínhamos somente o cenário. Algo bem convidativo: uma metrópole gigantesca abaixo de um escudo de vidro e em volta um campo sem fim de girassóis. Parecia sensacional, mas um cenário não conta toda uma história e nós precisávamos saber em quem vivia ali e o porquê.

Qual é o estilo de vida dessas pessoas, o que eles comem, como se vestem e se locomovem, quais são os sonhos deles, os medos deles e a tecnologia usada? Em um mundo de alta tecnologia, o que seria uma inovação tecnológica? Perceba, para construir um universo, perguntas precisam ser respondidas de modo que fica humanamente impossível pensar em tudo sozinho, e, ainda que fosse, não teria a menor graça. Esse é o principal ponto no worldbuilding, para fazer algo que realmente encha os olhos, você vai precisar de todo o capital humano que conseguir reunir, ou seja, muitas cabeças pensantes. Como roteirista, posso pensar no que aquele lugar conta, mas e os detalhes que não estão no texto e que fazem Wardogs se tornar vivo e coerente a quem assistir? Isso só é possível trazendo gente que sabe do que está falando. Me lembro bem do dia em que nós queríamos fazer um combate profissional entre dois personagens para a série que está para sair e, para que ficasse o mais próximo possível da realidade, nós tivemos o auxílio de um árbitro profissional de MMA. Quem assistir a série e for fã do esporte, vai reconhecer que ali existe uma conexão com a realidade. Aquele é um mundo plausível, então a história contada parece mais viva.

Após todo o brainstorming, colocar a história para andar fica menos complicado, o que não significa que no meio do caminho as coisas não vão mudar de novo e tomar um rumo diferente do que foi planejado. É um processo natural e deve ser encarado como um desafio. Nos quadrinhos, por exemplo, ao criar as histórias de Wardogs chegamos a conclusão que seria impossível não adiantar coisas que só seriam desenvolvidas da série.

Ao assistir ao nosso mini documentário sobre o processo de criação das HQs, o leitor vai notar todo o trabalho por trás e mesmo assim nem todas as perguntas serão respondidas, e de propósito, pois ainda existe muito a ser discutido. Neste episódio, falamos dos quadrinhos e como funciona uma produção como essa. Um worldbuilding como esse é um compilado de mentes tão criativas que cabe a elas explicar sua contribuição, então a minha recomendação para o amante de quadrinhos é assistir a este vídeo e depois reler todos os 5 volumes, desta vez com uma visão mais aprofundada e contextualizada do trabalho feito. Eu gosto de pensar que se começa sendo fã, então quem sabe o que a gente tem para te mostrar não te inspira de alguma forma.

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